Atividades de campo do Bacharelado em Desenvolvimento Rural fortalecem laços de reciprocidade com a comunidade quilombola de Vila União/Campina (Salvaterra/PA) no âmbito de projeto de pesquisa internacional
Nos dias 19 e 20 de fevereiro de 2026, os estudantes do 8º período do curso de Bacharelado em Desenvolvimento Rural, da Faculdade de Desenvolvimento Rural da Universidade Federal do Pará, realizaram atividade de campo no quilombo Vila União/Campina, localizado em Salvaterra, arquipélago do Marajó. A atividade ocorreu no âmbito da disciplina Povos e Comunidades Tradicionais e Unidades de Conservação na Amazônia, ministrada pelas professoras Monique Medeiros e Natália Ribas Guerrero, e integrou ensino, pesquisa e extensão em diálogo com a realidade marajoara. A experiência foi planejada como momento formativo estratégico a partir da articulação de conteúdos teóricos e práticos e materializou um exercício de escuta, troca e construção compartilhada de conhecimentos.

A ida ao Marajó aconteceu às 7h do dia 19 de fevereiro. A saída se deu do Porto de Balsas de Icoaraci, distrito administrativo de Belém. Após a travessia pela Baía do Marajó, o desembarque foi realizado no porto de Camará, por volta das 10h, já em território marajoara. De lá, em uma van a equipe seguiu pela rodovia PA-154, percorreu paisagens marcadas por florestas, campos naturais, campinaranas, áreas similares à fitofisionomia do Cerrado e pequenas comunidades rurais até chegar ao quilombo Vila União/Campina às 10h20. Em geral, esse deslocamento geográfico de Belém à comunidade é uma imersão gradual na realidade socioambiental do arquipélago e permite a qualquer visitante perceber as especificidades logísticas e territoriais que moldam o cotidiano das populações locais. Nele, foi visto o mosaico do bioma amazônico (que não é somente floresta) em um curto período de tempo.
O quilombo compõe o mosaico de 21 territórios ancestrais até então autorreconhecidos no município de Salvaterra e constitui um espaço de resistência, memória e produção de conhecimentos. Desde 2020, a professora Monique Medeiros mantém relações científicas e institucionais com organizações comunitárias locais, o que consolidou vínculos de confiança e possibilitou a realização da atividade de campo. Esse histórico de parceria foi fundamental para que a presença dos discentes ocorresse de forma respeitosa e alinhada às demandas da comunidade, o que permitiu que a visita ocorresse como desdobramento de um processo contínuo de cooperação.
A atividade esteve vinculada ao projeto Agroforestry climate-resilient in quilombola communities of the Brazilian Amazon, financiado pelo Instituto Interamericano para Pesquisas sobre Mudanças Globais (IAI), coordenado no Brasil pela professora Dra. Monique Medeiros e cuja proposta é fortalecer sistemas agroflorestais resilientes às mudanças climáticas em quilombos amazônicos. Os estudantes foram convidados a colaborar com duas oficinas previamente demandadas pelas pesquisadoras comunitárias que constituem a equipe do projeto A primeira, voltada ao cuidado e à manutenção de mudas, atendia a uma demanda concreta e operacional, diretamente vinculada às rotinas produtivas do território. A segunda, dedicada à gestão de dados em ambiente digital compartilhado, respondia a uma necessidade técnica relacionada à sistematização, organização e salvaguarda das informações produzidas no âmbito do próprio projeto.
No primeiro dia, a turma foi recepcionada por representantes do Núcleo de Ação e Resistência Quilombola (NARQ), na sede da Feira Quilombola, iniciativa organizada pelo núcleo e realizada mensalmente. Nesse momento inicial de acolhimento, os estudantes aprenderam sobre a história da comunidade, as formas de organização política e a trajetória do NARQ na afirmação de direitos. A escuta permitiu compreender que os sistemas produtivos locais estão ligados à identidade, à territorialidade e à resistência quilombola.
A atividade começou sob a perspectiva do diálogo entre ciências, reconhecendo que o conhecimento acadêmico não se sobrepõe ao conhecimento tradicional. Essa postura foi essencial para estabelecer um ambiente de confiança mútua e já sinalizava que as experiências posteriores seriam construídas de forma horizontal e colaborativa.
No período da tarde, os alunos realizaram a oficina de manejo de dados em ambiente digital compartilhado em uma igreja evangélica da comunidade.

A oficina respondeu à necessidade de organizar e proteger os dados produzidos no projeto de modo a fortalecer a autonomia das participantes no uso de ferramentas digitais. Foram trabalhadas habilidades como criação de pastas e subpastas, armazenamento e compartilhamento de arquivos, além de noções básicas de segurança da informação. Para além da necessidade de armazenar dados, ficou de reflexão o fato de que a transformação digital que atravessa territórios tradicionais precisa ser manejada como instrumento de fortalecimento comunitário, e não como imposição externa.
Ainda no dia 19, à noite, realizou-se uma roda de conversa com uma das matriarcas da comunidade, cuja narrativa entrelaçou a história do quilombo à sua própria trajetória de vida.

Ela rememorou processos de formação do território, lutas por reconhecimento e transformações vividas ao longo das gerações. Seu relato contextualizou historicamente a comunidade e reafirmou o protagonismo das mulheres na sustentação social, cultural e política do quilombo. O momento constituiu-se como aula de história marcada pela oralidade e transmissão intergeracional de conhecimentos. Além disso, outros moradores (que praticam agricultura e caça) contribuíram na roda ao compartilharem momentos sobre encantarias e lendas folclóricas amazônicas. O diálogo com esses atores do território ampliou o horizonte formativo da experiência: foi possível entrar nos universos simbólicos que atravessam o território. Ao compartilhar narrativas sobre seres encantados, memórias e experiências espirituais, eles reafirmaram a centralidade da cultura na organização da vida social. Para os estudantes, foi oportunidade de compreender cosmologias e modos próprios de interpretar a natureza.
No segundo dia, a turma organizou a Oficina de Cuidado com Mudas, cuja parte teórica havia sido iniciada no dia anterior. Na etapa prática, discentes e agricultoras produziram coletivamente o substrato orgânico, composto por caroço de açaí e esterco curtidos, areia e terra queimada. Foram demonstradas alternativas de baixo custo para produção de mudas, como uso de caixa de ovos, garrafas plásticas, galhos de bananeira e sacos plásticos convencionais.

Dispostas no chão e identificadas com seus nomes (urucum, biribá, milho, cupuaçu, cacau, mamão e graviola), as sementes representavam trajetórias, territórios e redes de pertencimento. Ao explicar que parte daquele material provinha de outros quilombos e de terras indígenas aos quais alguns discentes pertencem, foi possível entender que cada semente carregava histórias de circulação, troca e resistência. O gesto de compartilhar e apresentar essas variedades materializou um intercâmbio de conhecimentos e de componentes da agrobiodiversidade, no qual conhecimento técnico e memória ancestral se entrelaçam. Assim, a roda formada em torno das sementes tornou-se espaço simbólico de reafirmação da soberania alimentar e da valorização de patrimônios bioculturais que atravessam gerações e territórios.
Durante a atividade, foram discutidos e apresentados procedimentos como escarificação da semente de graviola e retirada da sarcotesta da semente do mamão – processos que aceleram a germinação ao facilitar a entrada de água –, além do posicionamento correto da semente para favorecer a germinação. A semente de milho, de coloração vermelha, despertou curiosidade das agricultoras, que imaginaram tratar-se de variedade também vermelha e se animaram para partilhar entre si. Entretanto, os estudantes explicaram que a cor indicava tratamento industrial antifúngico, característica que permite diferenciar sementes comerciais das crioulas. Esse diálogo possibilitou refletir sobre soberania alimentar, autonomia produtiva e dependência de insumos externos, ao mesmo tempo que reforçou a relevância de preservar variedades tradicionais adaptadas ao território.
Na sequência, foram apresentados dois métodos de enxertia para produzir plantas com as mesmas características da planta-mãe: garfagem e alporquia.

Na demonstração de enxertia, utilizou-se uma muda de cupuaçu cedida por uma agricultora, da qual se retiraram as folhas, mantendo o porta-enxerto (denominado de “cavalo”), para ser inserida verticalmente no saco plástico com substrato. Em seguida, a ponta do enxerto foi afunilada e encaixada no porta-enxerto. Orientou-se o isolamento da muda por cerca de 25 dias para garantir recuperação adequada. A técnica foi apresentada como estratégia para antecipar a frutificação e melhorar a produtividade no quintal das mulheres.
Já a alporquia foi realizada em uma aceroleira (pelos estudantes) e em um limoeiro (pelas agricultoras) mediante anelamento da casca, aplicação do substrato e envolvimento com dois tipos de plástico: saco plástico na árvore de acerola, garrafa plástica no limoeiro. Primeiro, as agricultoras assistiram ao procedimento realizado pelos estudantes na árvore de acerola e, em seguida, emularam o método na árvore de limão.

As demonstrações evidenciaram distintas técnicas que puderam ser apropriadas e adaptadas pelas agricultoras conforme suas realidades e a partir dos materiais que elas possuem.
A experiência dialoga diretamente com os princípios do projeto que sucintamente é denominado de “IAI”, que aposta na construção colaborativa de conhecimentos para enfrentar as mudanças climáticas no Marajó. Ao integrar pesquisa acadêmica e protagonismo comunitário (além da formação estudantil), o projeto contribui para que soluções para a crise climática emerjam do encontro entre ciência e conhecimento tradicional. Nesse sentido, as oficinas realizadas não foram isoladas, mas parte de uma estratégia maior de fortalecimento de sistemas agroflorestais resilientes.
A última atividade consistiu em roda de conversa com representantes do Instituto Belterra, parceiro executor do projeto Marajó Resiliente, responsável pela implantação de 800 hectares de sistemas agroflorestais diversificados no Marajó. A iniciativa, financiada pelo Fundo Verde do Clima (GCF) e liderada pela Fundación Avina, conta ainda com o Instituto Internacional de Educação do Brasil (IEB) e o Instituto Conexões Sustentáveis (Conexsus). A atuação concentra-se nos municípios de Soure, Salvaterra e Cachoeira do Arari, com horizonte de cinco anos (2024-2029) para fortalecer a resiliência frente à salinização dos solos e às secas.

O diálogo permitiu compreender como diferentes projetos convergem no território, o que potencializa impactos positivos e demonstra a importância de possíveis parcerias institucionais para ampliar a escala das ações.
Ao final, a experiência deixou aprendizados distintos e complementares para todos os envolvidos. Para os discentes, consolidou sobretudo a compreensão sobre a importância do diálogo intercientífico. Para as agricultoras, reforçou o acesso a técnicas e ferramentas que podem fortalecer autonomia produtiva e organizativa. Para a equipe do projeto IAI, fortaleceu a coconstrução de conhecimentos entre universidade e comunidade, ou seja, um caminho estratégico para enfrentar desafios climáticos. Cada parte levou consigo novos conhecimentos, vínculos fortalecidos e a convicção de que a construção coletiva é a base de territórios mais resilientes.
Redes Sociais